Demitir o Apresentador- O jeito fácil de limpar a barra da Liderança



Todos já ouvimos essa máxima de Peter Schutz: "Contrate caráter, treine as habilidades". Bulshit! Na prática não é assim, não têm sido assim e muito provavelmente, vai continuar não sendo por um bom tempo.


Com empresas cada vez mais atoladas, prazos mais curtos, exigências dos clientes aumentando, necessidades de vender e entregar, um dos recursos mais escassos é tempo para ensinar qualquer coisa. Diante de todas essas necessidades e uma escassez de pessoas qualificadas, caráter está longe de entrar entre as prioridades na hora de contratar.


"Oh, Paulo! Que absurdo você falar isso? De onde você tirou uma ideia dessas?" Pois é, de onde pode ter sido? Deixa eu pensar... ah sim... mais um apresentador de TV foi demitido, por fazer uma piada imprópria. Dessa vez foi o Léo Lins do The Noite. Olha só, um cara que tinha espaço num programa bacana, falava já várias baixarias, alfinetava várias pessoas com piadas de péssimo gosto, demonstrava insensibilidade para uma série de problemas... até que pisou no calo de alguém importante. E o que aconteceu? Foi demitido!


E o que isso tem a ver com contratação de falta de caráter, você pode estar se perguntando. Tudo a ver, eu te digo. Esse cara atendia a necessidade do programa que ele participava. Quem contratou ele já sabia dessa postura e atitude. Mas as pessoas não se importavam, porque afinal de contas, ele estava atacando o "outro lado", as pessoas que os donos do programa não se importavam. Nem os donos do programa, nem os patrocinadores, porque a audiência também não se importava. Até o momento fatídico de marcar um gol contra, atacar quem estava pagando o mingau. Aí o cara se torna persona non grata e a demissão acontece. E é aí que o chefe limpa a própria barra!


Vou contar um exemplo de uma situação que vivi há um tempo atrás. Eu e uma turma do trabalho saímos para um happy hour. Num hotel próximo ao escritório, havia um bar. Fomos para lá, curtir um fim de projeto, onde estava todo mundo feliz, falador e barulhento. Essa era a nossa pegada, mas não era a do bar do hotel. Os hóspedes de lá, que também estavam no bar, se incomodaram com a gente. Falaram com o gerente do hotel, que pediu ao garçom para nos pedir para falar mais baixo ou sairmos. Nós saímos, bravos, mas o nosso diretor, que estava ainda mais bravo, foi reclamar com o gerente que lhe respondeu "desculpe o incômodo, por favor, volte amanhã, o garçom será demitido!"


Não me esqueço desse caso. O gerente pediu ao garçom para reclamar conosco e, como ficamos bravos, o gerente tentou preservar sua imagem e a do hotel dizendo que o problema era o garçom. Como dizem, a corda sempre estoura no elo mais fraco. Pois bem, o que aconteceu com esse rapaz que foi demitido, aconteceu com tantos outros da mesma forma.


Estou pensando aqui nesse Léo Lins. o tal do Monark, Rafinha Bastos, William Waack, só pra citar alguns casos de televisão. Fora o recente escândalo do presidente da Caixa, Ministros indiciados por corrupção. Não que haja injustiça na demissão nesses casos, mas o fato é que, fosse o critério "caráter", nenhum deles sequer teria sido contratado.


E por mais que esses nomes estão distantes do nosso cotidiano, o que aconteceu com eles não está. Todos os dias vemos pessoas sendo promovidas com KPIs em alta, resultados no talo, grande número de vendas, conta bancária recheada, entregas espetaculares... mas sem um pingo de moral e decência, tratando suas equipes como lixo, sorrindo para os clientes e maltratando seus colaboradores e fornecedores. Gente que torna a vida de uns um paraíso às custas de tornar a vida daqueles que trabalham com eles um inferno.


Ecoa na minha mente uma das frases de Muhamed Ali: "Eu não confio na pessoa que me trata bem e trata mal o garçom. Porque fosse eu no lugar do garçom, ele me trataria da mesma forma." Mas muita gente parece não pensar dessa forma, mas ao contrário, simplesmente pensa: "então é melhor eu não ser o garçom para não ser maltratado". Tá errado esse pensamento! É assim que se cria uma sociedade cada vez mais injusta, hipócrita e tóxica.


E agora, vai a minha crítica para o verdadeiro chefe nisso tudo. Nós mesmos! O público, os clientes, a audiência, os compradores! Quando nós não nos importamos como um produto é feito, se os trabalhadores que produziram algo tiveram seus direitos respeitados, se foram bem remunerados, respeitados, se estão felizes. Se aplaudimos pessoas por seus resultados e fechamos os olhos para os meios que utilizaram para chegar lá. Quando sabemos que alguém é de péssimo caráter e a deixamos sem supervisão cuidando das nossas equipes.


"Treine habilidades". Essa frase é um grande equívoco. Temos que treinar tudo, habilidades e caráter. E cobrar ambas as coisas! Nas KPIs, além dos números de vendas, faturamento, lucratividade, é preciso considerar também absenteísmo da equipe, turnover, afastamentos por doenças relacionadas a estresse e afins. É preciso dizer qual comportamento é aceito e qual não é. E não basta tirar isso da própria cabeça, é fundamental ouvir as pessoas, sobre como elas gostam de ser tratadas e como não gostam. Os primeiros clientes de uma empresa são seus funcionários. E se eles não se sentem bem nem respeitados, se não estão felizes, todo o resto vai mal.


Lembra meu diretor que falei, que brigou com o gerente do hotel. Pois é, ele falou que sabia que a culpa não era do garçom, mas do líder que orienta mal seus funcionários e que se alguém deveria ser demitido, era ele. Esse mesmo diretor, mostrou que é fundamental e possível treinar postura e personalidade. Um coordenador, que era tecnicamente brilhante, mas tinha uma atitude tóxica com as pessoas, foi chamado por ele para uma reunião. Ele apontou os pontos no comportamento desse coordenador que não estavam ok e avisou que não seriam mais tolerados, e que ele tinha três meses pra se adequar ou seria demitido. Ao final dos três meses, ele chamou esse coordenador e lhe deu um aumento, pois reconheceu que ele havia mudado e muito para melhor.


Tudo isso pra dizer que o líder não deve só garantir o bom resultado financeiro da empresa, mas principalmente, a segurança psicológica de quem está na sua equipe. O líder deve ditar e cobrar a moral das pessoas. Ensinar como trabalhar e como se comportar. Como tratar bem um cliente externo e interno também. É papel da liderança não passar pano, para os seus queridinhos nem para si mesmo, mas assumir responsabilidade e trabalhar para se tornar um bom exemplo para quem está na jornada consigo.


Antes de demitir o apresentador, o atendente, o garçom ou a si mesmo, escolha contratar bem, treinar e educar as pessoas que vão fazer parte da sua equipe. E só depois disso feito, e bem feito, considere demitir aquele que não está fazendo a própria parte.


E você, o que pensa sobre esse tema?

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